Entrevista::José António e Leonel Fernandes - 1ªParte

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CUF, Campeões para sempre

As linhas que se seguem são apenas uma conversa, ou relato se preferirem, de amigos. Mais concretamente, o saudoso José António, conhecido como “Flecha”, e Leonel Fernandes, hoquistas campeões mundiais, campeões europeus e campeões pela CUF partilharam algumas das suas histórias. José Contreiras e Rinito Rita, ex-hoquistas do clube, também estiveram neste encontro informal. Victor Domingos, outro dos eternos campeões, não pôde estar presente, mas também contamos ter uma entrevista sua… Este trabalho é para a posteridade, para a eternidade. Para que o hóquei em patins na CUF, Quimigal ou Fabril não seja esquecido.

 

Uma polémica lancha do Seixal para o Barreiro…

Jornalista - O Leonel, por morar no Seixal, chegou a faltar aos treinos?

Flecha - O Leonel foi mal compreendido. Naquelas noites de mau tempo tinha a responsabilidade de treinar os miúdos e às vezes falhava.

Leonel – Não. Aos miúdos nunca falhei.

Flecha – Falhaste que eu tinha lá o meu filho.

Leonel - Não, não.

Flecha – Uma vez até me obrigaram a pôr a braçadeira de treinador e ir para o banco de suplentes.

Leonel – Não, uma vez cheguei foi mais tarde, porque o gajo da lancha não passava e eu tive de esperar que ele passasse.

Flecha – Não sei… Seja como for a Direção devia compreender a situação do Leonel, que era um espectáculo com os miúdos. A formar miúdos. Formou muitos.

Rinito – Realista, Cabo Verde, Ramalho…

Leonel – Sim o Ramalho e antes o Alexandre, o Salgado o Almeida, o Rui Batista, o Armando… Essa equipa era boa.

Leonel – Vamos lá a ver: eu não tinha dinheiro. O Zé sabe, pois às vezes chegava ao pé dele e dizia: “desenrasca aí que eu quero dinheiro para as passagens”. No fim do mês não me pagavam sete contos ou que era que eu recebia. Tinha de andar lá a pedir esmola para eles me pagarem.

Jornalista - Mas como jogadores não tinham ordenados?

- Não, não. Só tínhamos emprego. Respondem em uníssono.

Leonel - Como treinador recebia sete contos, mas mesmo assim falhavam. E desses sete contos ainda tinha de pagar o transporte!

Contreiras – Eu quando subi aos seniores, as reservas ganhavam 500 paus e a primeira equipa 750. Havia alguns que ganhavam mais…

Jornalista - Vocês são campeões nacionais em 1964/65 com os ordenados do trabalho do dia-a-dia?

Flecha – Sim, mais nada.

Jornalista - E, por exemplo, o Benfica com o Livramento, entre outros?

Leonel – Esse ganhavam ordenado.

Flecha – Não sei se ganhavam…

Leonel – Tinham ordenado que eu sei.

 

Quando o Zé foi à televisão…

Flecha - (…) O hóquei naquela altura já estava em baixo. Foi quando apareceram os ultramarinos. E a selecção de Lourenço Marques até já tinha ido competir a um torneio…

Rinito – A Montreux, à Taça das Nações

Flecha – Como marquei 100 golos, o seleccionador convocou-me para ir aos treinos.

Jornalista - Quem era o selecionador?

Flecha - Não sei… Tinha uma sapataria.

Rinito - Não era o Jesus Correia?

Flecha – Não, o Jesus Correia foi mais tarde. Aliás, vi os pormenores todos do Jesus Correia e do Correia dos Santos quando iam jogar a Estremoz. No dia seguinte, ia para o ringue e tentava fazer. Enquanto não ficasse satisfeito não saía. Voltando à seleção… chamaram-me para ir à televisão e depois fui convocado para ir à Taça Latina, a Barcelona. Mas não me cheguei a equipar. Eram convocados dez, mas só se equipavam oito. Mais tarde fui à Taça da Índia e o Leonel já andava na selecção…

Leonel - Na Taça da Índia? Ainda não estava.

Flecha – Já andavas lá (na selecção).

Leonel – Ainda não tinha ido à selecção … Só no último jogo com o Benfica, que ganhámos 4-3 e meteste dois golões…

Flecha - Um do meio campo, enrolada…

Leonel – … sim no jogo com o Benfica, o Leonel Costa chegou ao balneário e disse para irmos tratar dos fatos para ir à Seleção. Aliás, na Taça da Índia. Só não joguei na final com o Benfica, porque tive um acidente e fiquei com o olho tapado.

Flecha – Na Taça da Índia, na nossa poule, marquei sete golos contra o Cascais e foi isso que levou a chamarem-me à seleção. Aquele stick parecia que tinha olhos. Nunca vi um stick assim, a bola ia para onde queria. Marquei alguns 23 golos na Taça da Índia.

Contreiras – Nos cadernos da CUF está lá isso.

Flecha – Fui chamado à selecção e o Joaquim Manuel não quis ir à final com o Cascais. “Tenho de para a minha mão porque ela precisa…”, dizia o Joaquim Manuel, que tinha de ir para o Ultramar. Quando fui chamado à selecção e fui à televisão, lamentei muito o facto de ter ficado sem o nosso jogador Joaquim Manuel que tinha de ir para o Ultramar. Montei-lhe a armadilha a prever o que ia acontecer. Levantei o Joaquim Manuel nos píncaros. Passados dois dias o Joaquim Manuel já queria jogar… dei a volta ao gajo.

 

Notas:

Apesar de terem sido campeões nacionais pela CUF, não queriam dar aos atletas meio frango!

As finais nas décadas de 60 e não só eram disputadas como encontros: ou no Pavilhão dos Desportos, ou na Luz etc.

 

Uma viagem aos Açores atribulada…

Flecha - Fomos a Ponta Delgada num torneio até havia um diretor que era “larilas” que andava com um puto lá no hotel onde estávamos instalados. No ano a seguir é que fomos campeões e até fui ao Norte sem o Leonel e o Víctor Domingos, que foram castigados por esse director. Joguei à defesa. Nunca fui defesa mas tinha presença e cortava as bolas todas a meia altura.

Flecha – Mas voltando aos Açores, uma vez passámos uma noite inteira a ouvir gatos a miar. Dois dias depois deram-nos coelho!

Leonel - Nunca mais ouvimos os gatos até nos virmos embora. Desapareceram…

Flecha – Calhou a encontrar lá um marinheiro que estava lá numa fragata atracada. Subimos a bordo e convidaram-nos para no dia seguinte ir lá almoçar.

Leonel – Bacalhau com grão e bom vinho.

Flecha – Exatamente. Entretanto, já tínhamos lá feito um jogo em que o árbitro em cada dois golos nossos ao Micaelense só assinalava um. Foi de tal forma que no fim do jogo andaram a passear o árbitro e a gritar “Liberal é que é bom”. Liberal era o nome do árbitro. No almoço contámos ao comandante o que tinha acontecido no jogo. E depois quiseram a desforra e os marinheiros disseram: “Ai querem a desforra, então quem lá vai somos nós.” Epá, eu nunca vi tanta porrada na minha vida. Os marinheiros levaram para o jogo bandeiras com cabos de ferro.

Leonel - Ainda tenho uma bandeira dessas em casa. Grande moca. Mas no jogo estávamos a ganhar por seis e o nosso jogador Mário Ferreira pôs a perna à frente de um açoriano, este vai de pára-quedas e acabou o jogo.

Flecha – Não acabou, não.

Leonel - Acabou ali com aquela barafunda do Mário. O que é que acontece: para sair, o público e os jogadores só tinham um corredor, os marinheiros estavam ali e todos os que passavam “pumba”.

Flecha – Cheguei perto do árbitro e perguntei-lhe: “Então já acabou?” Ele respondeu-me: “Então eu já nem tenho apito!” E eu pirei-me para o balneário.

 

Em Estremoz, terra do Flecha…

Flecha - Uma vez a CUF foi fazer um jogo em Estremoz. Ganhámos, penso, 9-6. No fim do jogo estava eufórico e ia lá passar uns dias. O meu pai, encostado ao balneário, olhou para mim no fim do jogo e disse-me: “Isto é uma vergonha para a terra”. Eu disparei e respondi-lhe: “Eu f… e pago logo”. E ele para mim: “Ai tu f… e pagas logo!”. Disse que me ia embora que já não me sentia bem ali. O meu pai disse-me aquilo porque era o que ouvia na bancada. Chegaram a perguntar-me se eu era de lá (Barreiro) ou de cá (Estremoz). Respondi: “Sou de lá.”

 

“Pregar caixas de sabão”…

Jornalista - Chegaram a dizer-lhe que foi para o Barreiro pregar caixas de sabão. O que quer dizer isso em concreto?

Flecha - Dizia-se, de quem não tinha categoria, que ia pregar caixas de sabão.

Rinito – Era para quem não sabia fazer nada.

Flecha – Era a mentalidade dos estremocenses.

Rinito – Era algo depreciativo.

Jornalista - Migrou para o Barreiro à procura de trabalho?

Flecha - Vim para o Barreiro porque me ofereceram condições melhores na CUF para jogar hóquei. E não tinha emprego, não tinha nada em Estremoz. Foi assim: a CUF já me andava a namorar, mas eu ainda nem tinha idade de sénior. Mas era muito dispendioso fazer viagens de Estremoz para Lisboa e eu não tinha dinheiro. Por isso é que ainda joguei um ano como sénior em Estremoz…

Jornalista - E depois é que vem para o Barreiro?

Flecha - Sim. Mas antes disso tenho uma história boa para contar: quando ainda não tinha 18 anos só fazia jogos particulares, pois não tinha idade para ser inscrito. Mas estava sempre em alta, por isso é que a CUF já me andava a namorar. Além disso já tinham ido buscar um guarda-redes ao Estremoz que era o Serpa Carvalho.

Leonel - Já morreu.

Rinito – É verdade que era sempre ringue cheio?

Flecha – Sim, quando jogávamos faziam sempre uma receita do “arco da velha”, nunca faltava dinheiro. Como estava a dizer, eu podia equipar-me pelo Estremoz em jogos particulares e há um dia que recebemos a CUF. A CUF foi lá para ver se me via… Na 1.ª parte, o Estremoz estava a perder 4-0.

Jornalista - Nessa equipa já estava o Leonel?

Leonel – Não, eu só vou para a CUF em 1962.

Flecha - Eu cheguei primeiro à CUF.

Jornalista - Em que ano o Zé António vai para a CUF?

Flecha - Em cinquenta e tal…

Leonel – Em 1952.

Flecha - … continuando: entrei na 2.ª parte do jogo com a CUF e em meia dúzia de minutos passei o resultado 4-4. Qual não é o meu espanto quando vejo o diretor a chamar para sair. Epá! Fiquei desesperado de sair, então tinha feito uma proeza daquelas era para continuar. Até o público se levantou, parecia uma mola. Vim-me desequipar. Chega um alentejano ao pé de mim e disse-me: “Isto é para si.” E meteu-me qualquer coisa na bota que na altura nem vi o que era. E o alentejano continuou: “Se fossa a si nunca mais metia aqui os pés.” Quando fui ver o que estava na bota eram 200 escudos. Na altura era muito dinheiro.

 

Continuação...

Autor: Luís Palhais | 2011

 

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