Entrevista::José António e Leonel Fernandes - 2ªParte

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Quando o Flecha e o Leonel se defrontaram…

Flecha – Jogámos no Pavilhão dos Desportos contra a Mundet, onde jogava o Leonel...

Leonel - ... o treinador era o Sidónio Serpa.

Flecha – Exato. Quando íamos para Lisboa, um diretor da CUF disse: “Estou com fezada na equipa velha!” Que era o Marques da Silva, Joaquim de Almeida, o Zé de Almeida…

Leonel - ... o Chico Ferreira.

Flecha – O Chico Ferreira punha o pé à frente do pessoal e nós voávamos logo!

Leonel – Ele era mau, não estava cinco minutos em campo.

Flecha – Contra a Mundet ficava eu de fora, o Sabe Ler e o Custódio.

Leonel – O Custódio era bom jogador.

Flecha – Tinha velocidade e acompanhava-me, mas a um metro da baliza conseguia levantar uma bola a três metros de altura. Fazia-me confusão, quase nunca conseguia marcar um golo. Nesse jogo, em que havia uma grande rivalidade entre a Mundet e a CUF, começámos bem. A CUF começou a ganhar 1-0. Na segunda parte, o Álvaro Carvalheiro, da Mundet, marcou dois golos. Faltavam cinco minutos, e a perder 2-1, ouvi o Sidónio dizer: “Põe aí o Zé António.” Faltavam cinco minutos quando entrei e a CUF teve logo um penalty a favor: 2-2. Depois marquei quatro golos seguidos. Ganhámos 6-2. Quando cheguei ao balneário ia levando uma tareia dos gajos velhos da equipa. “Só quer a bola para ele”, gritavam.

Leonel – Aí os gajos tinham um pouco de razão.

Flecha – Ganhei o jogo! Mas, sim, eu era um pouco individualista.

Jornalista – Você era defesa?

Flecha – Não. Eu era avançado.

Jornalista - Então e aqueles golos de bolas enroladas que você marcava do meio campo? Estava convencido que era defesa…

Leonel – Isso era quando ele já estava quase na reforma!

 

No Mundial do Chile

Flecha – Num jogo no Chile, pela Seleção Nacional, marquei seis golos só na primeira parte.

Jornalista – Vocês jogaram os dois como avançados nesse jogo?

Flecha – Jogámos, foi a nossa estreia.

Jornalista - E o Livramento ficou no banco?

Flecha - Sim, ficou. Nesse jogo era o Fernando Adrião a servir-me bolas de bandeja e eu pumba. Mas os outros é que eram os craques. Por isso é que nesse jogo em que marquei seis golos tiraram-me na segunda parte. Já viste… seis golos! Mas aquilo era difícil.

Jornalista – Era difícil por quê?

Leonel – Estavam lá o Bouçós e o Livramento. Nós podíamos ter mais valor, mas não metíamos lá os pés!

Rinito – Nessa altura se fizessem três equipas portuguesas eram todas campeãs do mundo. Porque havia aqueles jogadores de Moçambique, o Moreira, o Souto, o Amadeu Bouçós, o Velasco, o Adrião…

Leonel – Espera lá, havia a Espanha! Mas, sim, nós tínhamos muitos valores. E acho que o Velasco não fazia parte dessa equipa, apareceu depois.

Flecha – Estava, estava.

Jornalista - Havia uma equipa de Moçambique…

Flecha - ... e uma seleção de Lisboa.

Leonel – Mas essa seleção de Moçambique nunca ganhou à de Lisboa. Três torneios seguidos e perdeu-os todos. Eu ganhei lá dois.

Rinito – A equipa de Lisboa eram vocês os dois (Leonel e Flecha), o Vaz Guedes…

Leonel – … o Livramento, o Vítor Domingos…

Jornalista - Zé António, quando se transferiu para a CUF?

Flecha – Em 1955.

Jornalista - E você, Leonel?

Leonel - No ano que fui à Seleção, em 1962.

 

Meio frango no jogo do título

Jornalista - Lembram-se do jogo decisivo do título?

Leonel – Sim. E lembro-me que o Melo e Castro não queria dar meio frango a cada jogador. “Meio frango?! Meio frango?!” Exclamava. O Melo e Castro era o diretor. Acabámos o jogo e ele não queria dar o meio frango, dizia que era muito comer para nós. Foi uma luta do caneco para conseguir o meio frango. Só queria dar 1/4.

Leonel – Uma vez fomos jogar à Luz e o Melo e Castro entrou no balneário e a gozar connosco disse: “Dou trezentos paus a cada um se ganharem o jogo.” Ganhámos e pedimos-lhe o dinheiro. Respondeu: “Estava a brincar.” E nós a pedirmos-lhe a guita.

Jornalista - Quem disputou com vocês esse campeonato do título?

Leonel - O Benfica... o Infante Sagres. Mas eram mais equipas. Íamos ao Norte e depois eles vinham cá abaixo. Tínhamos de fazer dois jogos no mesmo dia, ao sábado. Um de manhã, outro à tarde.

Flecha – Exato. Era assim: os quatro primeiros do campeonato apuravam-se e lutavam entre eles para serem campeões.

Leonel – Uma vez, não fomos jogar a Moçambique porque fomos roubados no Porto, num jogo que deu porrada que nunca mais acabava. Era sempre tourada…

Flecha – Aquele campeonatos valiam mais do que não sei quantos campeonatos do mundo.

Leonel – Eu não gosto deste sistema de campeonato de hoje em dia. Para mim era melhor como se fazia, com Zona Sul e Zona Norte e depois apuravam-se quatro equipas…

Rinito - … agora já não pode ser assim, Leonel.

 

Em Espanha, a dobrar!

Por que motivo defrontaram o Reus, de Espanha, duas vezes fora?

Flecha – Foi na primeira edição da Taça dos Campeões Europeus. Disseram-nos, na CUF, que não havia dinheiro e tivemos de fazer em Espanha os dois jogos.

Rinito – Uma questão financeira…

Flecha - Mais tarde, até o Jorge de Melo ficou admirado quando alguém falou nisso. “Não havia Dinheiro?!”, interrogou-se. Mas o mal já estava feito.

Jornalista - Mas lembram-se quem vos disse isso?

Flecha - Alguém da Direção.

Leonel – Foi o Hélder Ferreira

Flecha – Esse é que não quis que o jogo se realizasse cá.

Jornalista - O Reus ganhou-vos, já disseram. Tinha uma boa equipa?

Flecha - O Reus sempre foi uma boa equipa, naquela altura foi mesmo muitas vezes campeão europeu. Uma vez num torneio em Torres Vedras ganhámos ao Reus e ganhámos o torneio, mas íamos perdendo por causa do Vítor Domingos. Começou com dores de cabeça, teve de pôr umas rodelas de batata na cabeça [risos]. O Vítor Domingos tinha destas coisas. Por exemplo, tinha uma santinha na luva. Se a santinha desaparecia desorientava-se de uma tal maneira... Mas nesse jogo com o Reus, em Torres Vedras, depois entrou o Alberto e quando demos por isso já havia 5-5. Mas acabámos por vencer.

Rinito - Tenho uma pergunta para o Leonel. Foste campeão nacional de juniores pela Mundet?

Leonel - Não. Eramos para ser campeões, mas fomos roubados em Oeiras. Houve lá porrada e até a mesa do cronómetro foi pelo ar! Ficámos no segundo lugar.

Flecha - Nunca joguei nos juniores, não havia em Estremoz. Mas andava todos os dias dentro do ringue e a chamar a malta. Eu fazia aluguer de patins. Era um escudo para os patins e um escudo para as correias [risos]. Tinha negócio e dava para me aguentar, os meus pais não tinham possibilidade... Na escola, até à quarta classe, andei quase sempre descalço. Mas como morava no castelo demorava pouco tempo a chegar à escola. Quanto a estudar fazia-o com os resumos que me davam de gramática, geometria. Fiz a quarta classe e o meu pai pôs-me na Escola Industrial, mas pediram ao meu pai 200 escudos. "200 escudos?!". "'Bora".

Rinito - Outra coisa. Vocês tiveram um treinador que era o Cartaxo. Ele era um grande treinador de hóquei, não era?

Flecha - Era, era um gajo humano. Em contrapartida tivemos um treinador que era o Zé Carreira que era um malcriado. "Apalpa-lhe os colhões, apalpa-lhe o cu, que é isso que ele quer...", gritava. Iam pessoas e até mulheres ver o treino só para ouvirem palavreado do gajo!

 

Autor: Luís Palhais | 2011

:: O Clube G.D. CUF/G.D. QUIMIGAL Conversas Notáveis José Antº "Flecha" e Leonel Fernandes - 2ªParte