Entrevista::Vitor Domingos - 2ª Parte

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vitor domingos(2.ª parte) - Jogar de borla…

 Luís Palhais - O Zé António e o Leonel disseram numa conversa anterior que apenas tinham ordenado de trabalhador. Não recebiam por jogar. Consigo era a mesma coisa?

Vítor Domingos - Sim. Só houve uma vez… esta é para rir! Quando ganhámos o campeonato, em 65, fomos jogar à Luz contra o Benfica. Estávamos a equipar-nos e o Pimentinha [o presidente do clube] entrou no balneário. ‘Vou dizer-vos uma coisa: o engenheiro Melo e Castro diz que se ganharem ao Benfica dá 300 escudos a cada um’. Até o mandámos embora. Até porque era difícil ganhar ao Benfica, na Luz, pois eles tinham uma grande equipa. O Ramalhete, o Garrancho, o Livramento, o Jorge Vicente…Enfim. É que nem ninguém ligou cartão àquilo que foi dito, pensámos que estavam a gozar connosco. Fiz uma exibição do caraças! Outras vezes as bolas iam ao poste, mas não entravam. Às vezes andava à procura da bola e ela batia em mim! Ganhámos o jogo! Passou-se uma semana, ou mais, e fomos ter com o Pimentinha. - ‘Então, o dinheiro?’. – ‘Ah ele está a tratar disso…’, respondeu. Passado um mês lá recebemos o dinheiro.

Luís Palhais - Confirma quem nem quando foram campeões nacionais queriam dar meio frango a cada jogador, dado que a regra era de 1/4 frango por jogador?

Vítor Domingos - É assim: quando íamos jogar fora, a Cascais, aos Salesianos etc, íamos comer à Cova da Piedade. O Leonel comia bifanas… Aquilo era uma bifana a cada um. Aliás, nem era uma bifana, que nós levávamos duas sandes e um pero do refeitório. Só que nós não gostávamos das sandes, queríamos bifanas. O Pimentinha permitia, era um pouco pela porta do cavalo… Mas sempre que pedíamos mais uma bifana dizia logo que a conta estava fechada.

Luís Palhais - Que reconhecimento lhes deram na CUF quando foram campeões?

Vítor Domingos - Deram-nos um jantar no Faia, restaurante típico, no Bairro Alto. Nesse restaurante foram lá ter o Jorge de Melo e um engenheiro que não podia um bocadinho comigo. Bem, foi lá a comitiva toda. O Jorge de Melo cumprimentou toda a gente. Eu estava lá num canto não me cumprimentou! Esse engenheiro, que esteve no jantar, não me gramava porque quando eu estava na fábrica Sol houve promoções no pessoal e eu não fui promovido. Fui perguntar porquê, eu trabalhava como os outros. Mandaram-me ir falar com outro engenheiro.

- “Você quer ser promovido?! Então você anda sempre fora a jogar hóquei”, respondeu-me.

- “Nos dias dos jogos não me deixam sair e eu fico a trabalhar”, respondi-lhe. Mandaram-me ir à sede falar com outro engenheiro, mas recusei. Trabalhava tanto como os outros! E nunca fui promovido. Nesse jantar o Eliseu disse: “Temos aqui o melhor guarda-redes do mundo, conhece?”. – “Esse! Conheço-o muito bem”, disse o engenheiro”. Até me arrepiei. Ficou-me cá com um pó!

Eu conhecia aquela gente toda porque eles iam jogar hóquei para o ringue de Sintra. O Jorge de Melo, o irmão… Aqueles engenheiros iam todos jogar hóquei ao domingo de manhã, na brincadeira. O Jorge de Melo patinava bem!

Mas também me lembro bem dessa noite no Faia porque quando fomos campeões nacionais, no último jogo, ganhámos 2-1 ao Valongo, na Luz. O pessoal do Valongo deu-nos umas caixas de bolos sortidos de Valongo. A minha mulher estava em Sintra com os miúdos e eu vim para o Barreiro festejar com a malta. Quando cheguei a casa, estava sozinho, e pus-me a comer os bolinhos secos e a beber whiskey. Apanhei uma traquitana que nem queiras saber [risos]. Adormeci com a luz acesa e o rádio a tocar. Um vizinho de manhã ouviu barulho, estranhou porque sabia que tínhamos ido para Sintra e tocou à campainha. Lá acordei.

Moedas pelos ares

Rinito – Onde é que a Seleção Nacional jogou que vos atiraram moedas quando vocês estavam a jogar, foi na Alemanha?

Vítor Domingos – Não. Foi em Itália. Os alemães só podiam perder connosco por diferença de um golo, para serem apurados para o campeonato do mundo. Começou o jogo, fizemos um 1-0, o 2-0 e no fim do jogo o Moreira sofreu um golo sem pés nem cabeça! E havia um jogador da Alemanha que jogou comigo no Sintra. Os gajos meteram na cabeça que estávamos a fazer um frete aos alemães. Armou-se para ali uma barafunda! Eram os franceses e os suíços a protestarem, enfim. Depois do jogo acabar disseram-nos para não nos desequiparmo-nos, tínhamos de fazer outro jogo, ordens do Comité. [Comité Internacional de Hóquei em Patins, conhecido como CIRH].

Bem, fizemos outro jogo. O alemão que tinha jogado comigo nos juniores do Sintra ainda foi ao balneário falar comigo para fazer o jeito, eu disse-lhe que era o Moreira que estava na baliza. Começou o segundo jogo colocámo-nos outra vez a ganhar 2-0, mas os alemães só defendiam não saiam de cima da baliza. Nós atacávamos, mas eles quando recuperavam a bola não subiam para o nosso meio ringue, atiravam a bola! Houve uma vez o atirámos a bola de volta. Olha, o jogo parecia ping-pong, era só ver moedas a voarem para a pista. E eu enchi as luvas com moedas [risos]. Perto do fim do jogo os alemães atiraram mais uma bola como se fosse ping-pong, o Moreira atirou-se para o ar, a bola passou por baixo. 2-1. Pronto, mais moedas, mais liras.

Vítor Domingos - Uma vez arranjámos um esquema de pôr a cama do Zé António [Flecha] presa apenas por arames, porque ele tinha a mania de se atirar para cima da cama sempre que íamos a algum lado. Só que o Zé António foi ao quarto fazer não sei o quê e assim que abriu a porta a cama caiu. Só com o vento da porta! Ele arranjou a cama toda e não disse nada. Quando chegámos todos ao quarto atirou-se de para cima da cama… ficámos a olhar para ele e ele a rir-se.

Passagem pelo futebol e outros convites

Vítor Domingos - Eu gostava era de futebol e tinha jeito, não tinha era altura. Com 15 anos já tinha o tamanho que tenho hoje. Nos treinos do Sintrense, quando faltava um jogador mesmo com 15 anos ia eu para a baliza. E adorava aquilo. Pediram à minha mãe para me deixar ir para o Benfica fazer um treino de futebol. E eu era sportinguista! Não queria ir, mas lá fui para o Campo Grande. Cheguei lá eram mais de 300 putos. Deram-me uns calções e uma camisola toda rota. Uns ténis velhos. Puseram-nos num ringue no Campo Grande a jogar. Eram seis guarda-redes de cada vez e uma tonelada de gajos à bicarada à bola. Às vezes ia apanhar uma bola levava com outra na tromba. Ao fim de 15 minutos, mais do mesmo. Quando chegou ao fim fui convocado para o treino seguinte. Conclusão: fiquei nos 22 e cheguei a fazer parte da equipa dos juvenis do Benfica, na temporada de 1956/57. Mas estou a contar-te isto porque na altura jogava hóquei em patins e futebol. À tarde treinava uma modalidade e à noite outra. Mas depois o Cipriano [antigo guarda-redes do Sintra e da Seleção Nacional] não queria que eu jogasse futebol e andava atrás de mim a pressionar-me. “Você não tem altura para jogar futebol”, estava sempre a dizer-me…

Luís Palhais – Teve convites para ir para outros clubes depois de estar na CUF?

Vítor Domingos - Tive um convite para ir para o FC Porto. Na mesma altura em que foi para lá o José Fernandes. Eu era para ir também, mas não quis ir porque já tinha família e filhos. E nessa altura também tinha 32 anos, já não era tempo para aventuras.

Jogadores e jogadas marcantes…

Luís Palhais - Qual foi o jogador que você gostou mais de ver jogar?

Vítor Domingos - O Velasco, pela humildade. Porque era um jogador coletivo, jogava para a equipa e prescindia do seu valor individual. Já o Adrião era o contrário, era individualista e a equipa ficava para trás. Só queria dar nas vistas. O Velasco era mais completo.

Luís Palhais - E como treinador quem foram os jogadores que o marcaram mais? Quem gostou mais de treinar?

Vítor Domingos – Apanhei várias gerações na Quimigal… Gostei muito de treinar o Veríssimo. Lembro-me de dois irmãos, os Pires. O mais velho era uma carraça! O Álvaro, o Jorge Pinto. Também gostei de treinar o Carlos José, o Florindo. Havia uma guerra entre o Carlos José e o Florindo! O padrinho do Florindo dava-lhe dinheiro cada vez que ele marcava um golo. O pai do Carlos José soube e dava o dobro do dinheiro ao filho [risos]. Uma vez fomos jogar não sei onde e eles não passavam a bola um ao outro. Disse que assim não jogava nem um nem outro. O pai do Carlos José ia-me matando!

Vítor Domingos - Em 1968 havia o Campeonato Regional e depois é que se apuravam quatro equipas para jogar o Nacional. Então as equipas eram Paço d’Arcos, Benfica, Sporting, FC Porto, Salesianos etc. Nós, nesses jogos, ganhávamos 1-0, 2-1. Eu defendia, o Leonel marcava. Andámos ali naquilo. Num jogo em Oeiras há um contra-ataque conduzido pelo Carvalho [do Oeiras]. Atirou uma pedrada do lado esquerdo, eu consegui dar um pontapé na bola e o Leonel, que tinha ficado um pouco mais atrasado, ficou isolado e marcou golo. Ganhámos por um golo. Quanto mais força trazia a bola melhor. Eu idealizava o meu equipamento, as minhas luvas eram reforçadas e as minhas caneleiras foram feitas na CUF. Desenhei o esquema e fui falar com um gajo para as fazer. Era um espetáculo, quanto mais força a bola trazia mais rápida saía.

Luís Palhais – Sente orgulho em ver o pavilhão do Fabril com o seu nome?

Vítor Domingos – Fico satisfeito, é uma homenagem, mas é muito complexo. Eu posso ter sido o jogador mais internacional do clube, mas quando vim para cá já era internacional. E houve o Leonel, o Zé António… As coisas deviam ser analisadas de outra maneira e não fazer-se tudo pela vontade de uma pessoa. Devia haver uma assembleia e o nome do pavilhão devia ser proposto aos sócios, porque os sócios são soberanos. Em Sintra tenho o meu nome numa rua, num bairro novo, mas foi decidido em assembleia municipal.

Autor: Luís Palhais | 2012