Entrevista :: Leonel Fernandes

  • PDF

LEONELConversámos com o nosso campeão Leonel Fernandes, que nos falou das suas recordações de tempos de glória para este clube. É o segundo relato que o ex-hoquista nos faz, contando novas histórias de mundiais, europeus e campeonatos em que brilhantemente participou. Rinito Rita e a família de Leonel estiveram presentes nesta conversa de amigos. Recordamos que este trabalho é para a posteridade, para a eternidade. Para que o hóquei em patins na CUF, Quimigal ou Fabril não seja esquecido.

 

Da Mundet para a CUF

Luís Carmo - Quando começou a jogar na Mundet?

Leonel - Tinha 14, 15 anos. Comecei no juniores, mas rapidamente subi para os seniores. Depois continuei até ir para a CUF.

Luís Carmo - Mas já sabia patinar? Isso é uma aprendizagem muito rápida!

Leonel - Tinha tempo, estava sempre no rinque a ajudar a limpar, varria a bancada... Para compensar o trabalho que fazia, o empregado dava-me uns patins e eu andava sempre com eles calçados. A partir daí, o treinador Álvaro Carvalheiro começou a ver que eu tinha jeito e depois puxou-me para os seniores. Ainda cheguei a jogar com o Mário Ferreira e fui à seleção nacional de juniores com ele, em 1956, salvo erro. Então, o Mário saiu para a CUF e eu subi a sénior e assim foi até sair para a CUF.

Luís Carmo - Quantas vezes jogou contra a Mundet, depois de ter ido para a CUF?

Leonel -  Só uma vez.

Luís Carmo - Como foi recebido?

Leonel - Foi um bocado mau! Não aceitaram muito bem a minha saída para a CUF e por isso trataram-me um pouco mal. Um rapaz, que hoje está em França, entrou em campo não para jogar hóquei, mas só para me dar porrada nas mãos. Mas ele não teve hipóteses nenhuma e acabámos por ganhar. Na bancada foi tudo tranquilo.

Luís Carmo - Foi para a CUF em 1962. Porquê?

Leonel - Ofereceram-me trabalho e davam-me outras condições que a Mundet não dava, logo, acabei por ir para a CUF. No meu primeiro ano na CUF fui logo à Seleção Nacional para o Mundial em Santiago do Chile. Foi o meu primeiro Mundial.

No Chile

Luís Carmo - O que o impressionou mais no Chile?

Leonel - A miséria! O país naquela altura era estranho. As pessoas tinham medo! E a seguir é que chegou o Pinochet ao poder.

Luís Carmo - E desportivamente?

Leonel - Penso que consegui aquilo por que lutei muito, pois hoje a maior parte dos atletas da zona sul não sabem o que custa ir à seleção de Lisboa. Era muito difícil um jogador da margem sul conseguir entrar na equipa. Não foi por acaso que eu, enquanto jogador da Mundet, nunca consegui ir à Seleção. Ia aos treinos todos os meses, mas nunca conseguia ser convocado. Ficava nos escolhidos até ao último treino e depois mandavam-me embora. Só quando fui para a CUF é que fui à Seleção. Melhorei o meu valor assim tão de repente?! Não. Só que a CUF tinha um poder que a Mundet não tinha. Lembro-me de um episódio: quando fui à Seleção de juniores com o Mário Ferreira inicialmente não estávamos convocados. Só que treinávamos com os seniores e então perguntaram se alguém tinha visto os jogos de juniores da Mundet. Respondemos que não. Depois falaram com o selecionador da altura, ele viu-nos jogar e fomos logo selecionados para ir a Barcelona. Até nos mandaram fazer os fatos para a Seleção. A partir daí continuei a ir, mas era era muito difícil para um jogador daqui. Havia a teia da Linha: Paço de Arcos, Oeiras, Cascais; a teia de Sintra... tudo isso tornava difícil um jogador daqui ser convocado para a equipa nacional. E eu ainda fui uma das vítimas dessa situação.

Os melhores de sempre

Rinito - Jogaste com o Velasco e com o Livramento na Seleção. Na tua opinião qual era o mais completo?

Leonel - O Livramento. O Velasco também era um grande jogador, mas joguei pouco tempo com ele. Era um jogador de equipa, diferente do Adrião. O Adrião jogava para a exibição. Por isso é que quando jogavam por Moçambique nunca ganhavam à seleção de Lisboa.

Rinito - Quem era a equipa de Moçambique?

Leonel - Moreira, Velasco, Bouçós, Adrião e Souto.

Rinito - E a de Lisboa?

Leonel - Edgar, Pompílio, Virgílio... no ano a seguir vou eu, Livramento, Vítor Domingos, Urgeiro, Vaz Guedes...

Ganhámos dois torneio em Lourenço Marques. Os jogos em Moçambique eram encarados como se de um campeonato do mundo se tratasse! Parecia mais valioso do que um campeonato do mundo. O pavilhão em Lourenço Marques [hoje Maputo] estava sempre a abarrotar. O Adrião dava porrada... em nós e em quem calhasse. Uma vez em Lourenço Marques levei 12 pontos no sobrolho, foi ele. Mas depois quando nos encontrávamos na Seleção Nacional éramos todos amigos [risos].

Luís Carmo - Quem foi para si o melhor guarda-redes de sempre?

Leonel - O melhor guarda-redes que vi até hoje foi o Vítor Domingos. Fala-se no Moreira, mas ele não era um guarda-redes muito atacado, até adormecia na baliza!

Luís Carmo - O Vítor Domingos na entrevista que nos deu já contou essa história.

Leonel - Exato. Por aí se vê que era pouco atacado. Para mim o Vítor Domingos foi o melhor.

Em Bilbau

Luís Carmo - Nas suas memórias fala sempre no Mundial de 1962, que se disputou no Chile. E no que diz respeito aos Europeus, qual o marcou mais?

Leonel - Em 1967, ganhámos o Europeu em Espanha, em Bilbau. O guarda-redes espanhol era o pai do Edo Bosch, o guarda-redes do FC Porto. Quem ganhou esse campeonato foi a malta de cá: Livramento, eu, Júlio Rendeiro, Américo Solipa, Vítor Domingos...

Luís Carmo- É nesse Europeu que marca um golo de que nunca se esqueceu.

Leonel - Sim, ganhámos 1-0 à Espanha na final e marquei o golo. Foi aos três minutos de jogo. Nem queiram saber a luta que foi aquele jogo até ao final. Eles queriam marcar e nós defendíamos. Foi terrível! No intervalo quando estávamos a ir para o balneário gritavam connosco. Eu virei-me para a bancada e disse que os mordia. Atiraram-me um tomate de um tamanho que nunca vi na vida, parecia uma abóbora! Era tomate por todo o lado [risos]. Depois quando voltámos a entrar em campo ouvimos mais um coro de assobios, mas nada me amedrontava, estava sempre disposto a ir à luta. Seja como for, os jogos com a Espanha eram assim: quem marcasse ganhava! Havia sempre poucos golos. Os espanhóis estavam sempre bem servidos de guarda-redes e defendiam bem. E eram rijos, davam no osso. Para entrar na zona defensiva deles era um caso sério.

Episódios extra hóquei

Luís Carmo - E na CUF, conte-nos um episódio que o tenha marcado.

Leonel - Há muitos. Uma vez em Cascais estávamos a perder 5-1e fomos ganhar 6-5. Um tio meu que jogava futebol foi ver o jogo. O Feliciano, que jogava no Belenenses, era diretor no Dramático de Cascais. No fim do jogo não nos deixavam sair do rinque. O meu tio lá falou com o Feliciano e lá conseguimos que parassem de nos atirar pedras. Conseguimos sair, ir para o autocarro e ficámos ali com um amigo. Mas houve mais episódios: no Pavilhão Carlos Lopes uma vez num jogo contra o FC Porto houve porrada. A arbitragem favoreceu o FC Porto e criou-se um autêntico pandemónio com as pessoas que foram do Barreiro - três barcos, autocarros, etc. A mãe do Zé Manuel defendia os filhos da polícia. Batia nos polícias... parecia um martelo e os polícias a caírem para o chão. No entanto, depois houve um polícia que percebeu o que estava a acontecer e também lhe bateu. O Pedro, que jogava futebol, andava com um boné da polícia na cabeça! O Melo e Castro, o diretor da secção, alertava para não sairmos dali com os bastões nem com os chapéus da polícia senão íamos todos presos. Foi uma batalha campal! Foi um jogo de gritos! Mas os jogadores nem se pegaram, foram só as pessoas das bancadas por causa da arbitragem. E uma vez em Campo de Ourique - mas aí já era treinador - ganhámos o jogo e apareceu um tipo parecia um touro, queria arrombar a porta do balneário. Nós tivemos de segurar a porta! Mas foi dominado por um polícia pequenino que lhe disse: "Ou desapareces daqui ou vou a contas contigo."

Luís Carmo - Os jogos em Oeiras e na Parede também costumavam ser complicados. Era mais difícil jogar nesses locais do que contra Benfica ou Sporting?

Leonel - Era. A Linha tinha um ambiente terrível. Sintra também era bravo, jogávamos no jardim. Uma vez em Sintra caíram-me os dois tacões e joguei na mesma, mas eles não acreditavam. Mostrei-lhes os patins no fim do jogo. Eu como arrancava de lado ou com as rodas, os tacões não me fizeram falta. Mais: o piso em Sintra era muito húmido, se se metesse os tacões para arrancar íamos com os queixos ao chão. Eu não metia os tacões no chão, logo equilibrava-me.

Luís Carmo - Confirma que se registavam sempre grandes assistências nos jogos da CUF?

Leonel - O pavilhão estava sempre a abarrotar! Houve um jogo com o Sporting no qual foi montada uma bancada especial. Nessa época, o Sporting foi campeão. Perderam 6-4. A equipa era eu, o Alexandre, da Parede, o Maurício o Zé Carlos e o Vítor Domingos. O Renato era júnior mas já jogava. Era suplente. A equipa do Sporting, que chegou a ser campeã europeia, era composta por Ramalhete, Chana, Sobrinho, Rendeiro, Livramento... Nem imaginam o que era aquilo, o pavilhão estava superlotado, não cabia lá ninguém! Nesse jogo o treinador do Sporting, o Torcato Ferreira, disse ao Salema: ‘Vais lá para dentro e vais agarrar-te ao Leonel. Não o largas!’ Na minha opinião, no hóquei ninguém consegue marcar homem a homem, é uma ilusão. Assim que eu apanhava a bola adeus Salema. Só ouvi o Torcato dizer ao Salema, perto da tabela: ‘Agarra-te a ele.’ E o Salema respondeu: ‘Só se for com um fio.’ Deixei o Torcato furioso. No fim do jogo, fui ter com o Torcato - ele gostava muito de mim - e perguntei-lhe: ‘Então agarra-te a ele, hã’ E o Torcato ria-se... ‘estás a gozar’, respondeu.

Como treinador

Rinito - Fizeste um grande trabalho de iniciação no clube que deu jogadores como Carlos Realista, Hernâni Nunes, Alexandre Ribeiro... queres falar sobre esse tempo?

Leonel - Foi uma época de ouro porque o Grupo Desportivo tinha umas condições espetaculares. O hóquei tinha o apoio dos diretores e os miúdos tinham todas as condições para patinarem sem pagarem um tostão. Tinham patins, setiques, joelheiras, caneleiras, equipamento completo. E como eram muitos miúdos podia-se sempre escolher os melhores. No fim houve alguns seccionistas que começaram a falhar, pensavam que eram os donos do Grupo Desportivo. Foi uma pena. E foi uma pena a iniciação não ter continuado. Lembro-me de treinar centenas de jogadores. Na altura preparavam-se bem os jogadores para passarem ao escalão superior. Os juniores passavam a seniores. Foi o caso do José Fernandes, do Zezinho, do Salustiano... As escolas do clube davam os jogadores aos seniores.

Luís Carmo - Reconheceram o que fez pela CUF?

Leonel - Acho que sim. Fui bem tratado na CUF. Ajudaram-me a ser homem. Ajudaram-me quando precisei, estou bastante agradecido, reconheço-o sem dúvida nenhuma. E gosto muito da cidade do Barreiro. Os próprios colegas foram fantásticos, eu nunca tinha saído do Seixal! O Município do Barreiro também me manda muitos convites.

Uma sova

Leonel - Uma vez, quando estava a aprender a patinar, não tinha sapatos para andar de patins e precisava-se de calçado para depois apertar as correias. Cheguei a casa e vi que o meu avô tinha umas botas encarnadas, quadradas. Levei as botas, usei-as e comecei a travar. Eram mesmo boas! Mas o cimento desgastou as botas num instante e quando cheguei no fim do treino as botas tinham ido à vida. Quando o meu avô deu pela falta das botas levei uma sova [risos].

 Autor: Luís Palhais | 2013